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ARMADILHAS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO COMBATE CONTRA A DENGUE NO RN


A caça ao mosquito aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika, tem um importante aliado em Natal. A capital utiliza um método inovador, que combina a tecnologia de baixo custo das ovitrampas, com um sistema de inteligência artificial. A ovitrampa é uma espécie de armadilha, que simula um ambiente propício de proliferação e captura os ovos colocados pelo mosquito transmissor. As informações são compiladas em um algoritmo do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN), que ajuda a prevenir o surgimento de novos vetores de contaminação.

A medida é uma das principais ações do Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria de Saúde de Natal (CCZ/SMS), diz a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde (DVS), Vaneska Gadelha, porque combate o aedes aegypti antes mesmo dele nascer. “A gente só tinha um único norteador que era a vigilância epidemiológica, que vigia o adoecimento da população, e hoje Natal também tem a vigilância entomológica para guiar as ações de combate ao vetor. A ovitrampa é um monitoramento ‘padrão ouro’ para o Ministério da Saúde, e Natal vem desenvolvendo novas estratégias utilizando todo o potencial que a ovitrampa nos dá”, conta.

A ovitrampa é montada com um recipiente, uma palheta de madeira e um clipe de papel. O recipiente é preenchido com água e a palheta é fixada com o clipe na lateral do vasilhame. As armadilhas são deixadas em pontos estratégicos da cidade pelo período de uma semana. Após isso, os agentes fazem a retirada das ovitrampas e encaminham as palhetas, nas quais os ovos dos mosquitos transmissores ficam depositados, para análise laboratorial das equipes técnicas do CCZ. Os ovos são contados um a um e com esse dado em mãos, é possível identificar as áreas com a maior densidade de mosquitos fêmeas.

“É uma ferramenta para gente saber a situação em tempo oportuno, ainda no período do ovo, e direcionar outras ações de combate, por isso que é uma armadilha muito estratégica de controle. Elas colocam entre 200 e 150 ovos por postura, então eu tenho como dimensionar a quantidade de fêmeas naquela localidade. Se eu recolho uma armadilha com 400, 500, ou até 1.000 ovos, como a gente já conseguiu, eu sei que naquele local existem muitas fêmeas”, explica Márcia Cristina, chefe do Núcleo de Vigilância Entomológica do CCZ.

Ao todo Natal conta com 628 ovitrampas, colocadas a 300 metros de distância de uma para outra, nas quatro zonas da cidade. “Com isso, a gente consegue trabalhar bairro a bairro, de forma diferenciada e oportuna, para saber qual região tem uma densidade vetorial maior do que outra região”, comenta Vaneska Gadelha. O controle do mosquito via ovitrampa começou a ser testado ainda em 2014 e foi se aperfeiçoando ao longo dos anos. Neste ano, o projeto se modernizou e passou a contar com o auxílio do LAIS, que analisou as fontes de dados e desenvolveu um método.

“Esse é um trabalho original a nível de Brasil. O munício mantém essas armadilhas e eles observaram que quando há aumento dos ovos, há surto de dengue. Só que eles não conseguiam demonstrar isso cientificamente. Logo no início da pandemia, encontrei Alessandre [de Medeiros, ex-diretor do CCZ, falecido em 2021] e ele disse que queria que nós estudássemos o banco de dados do centro para demonstrar que a ovitrampa funcionava”, conta Ricardo Valentim, coordenador do LAIS.

A ideia de Alessandre era que, a partir da validação científica, o Município adotasse as armadilhas como modelo de combate ao aedes. “Nós pegamos o banco de dados deles, pegamos dados sobre os ovos, mosquitos, internações e casos de dengue que aconteceram em Natal por quatro anos”, comenta Valentim.

Ainda de acordo com o pesquisador, o sistema é capaz de antecipar surtos em até seis semanas, o que permite o direcionamento de outras ações de combate como o envio de agentes comunitários de saúde para os locais indicados. “É um termômetro até melhor do que o baseado nos internamentos porque ele antecipa o adoecimento. Isso nós conseguimos dizer com 92% de certeza. Outros estudos utilizam índices de casos para fazer uma predição, mas apenas quando a pessoa já está doente e aí já é tarde demais”, diz.

Pneu é principal criadouro em Natal

Segundo a chefe do Zoonoses, Vaneska Gadelha, cerca de dois mil pneus descartados irregularmente são recolhidos por semana em Natal. Uma força-tarefa foi montada com agentes de saúde e profissionais da Companhia de Serviços Urbanos e da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) para remover pneus, entulhos, lixos e objetos que venham a se tornar criadouros do mosquito. As atividades “em campo” acontecem sob a orientação dos dados técnicos obtidos pela vigilância epidemiológica e por meio das ovitrampas. O objetivo do Departamento de Vigilância em Saúde (DVS) é prestar esclarecimentos à população sobre a necessidade dos cuidados. 

 
Foto: Magnos Nascimento

Chefe do Zoonoses, Vaneska Gadelha, diz que cerca de dois mil pneus descartados irregularmente são recolhidos por semana em Natal

“Estamos nos reunindo semanalmente para criar soluções para esse problema. Detectamos tecnicamente que o criadouro predominante em Natal é o pneu. A gente tem um descarte de forma irregular pela cidade e isso está promovendo criadouros bastante aconchegantes para o mosquito porque eles são escuros, úmidos, é como se fosse um grande berçário a céu aberto. Aproximadamente 60% desses pneus que são retirados semanalmente possuem foco de mosquito, então é muito preocupante”, pontua Gadelha.

Além disso, a Prefeitura vem organizando caminhadas educativas para conversar com a população, principalmente nos bairros de Pajuçara, Nova Descoberta e Pitimbu (Cidade Satélite), onde os casos têm se intensificado. O município de Natal é considerado um território endêmico para as arboviroses, especialmente nesse período do ano, quando há dias de chuva e sol intercaladamente.

“Nós percebemos um aumento no número de arboviroses e também de focos em Natal, por isso nossa capital vive um momento de alerta e também de cuidados redobrados nessa época do ano. É muito importante que a população se conscientize e também possa contribuir nesse combate às arboviroses, não deixando recipientes a céu aberto acumular água, descartando o lixo de maneira correta e tampando a caixa d'água”, orienta Gadelha.

Casos de dengue crescem 2.298%

Os casos de dengue na capital potiguar cresceram 2.298% neste ano, até 28 de maio (Semana Epidemiológica 21) em comparação com o mesmo período do ano passado. Os casos saltaram de 277 nos cinco primeiros meses de 2021 para 6.643 em 2022. No mesmo intervalo comparativo, os casos de chikungunya subiram 733% e os de zika tiveram uma redução de 47%. “É uma situação que preocupa, por isso devemos que devemos eliminar o foco, ou seja, não deixar água parada, principalmente água limpa para que a gente tenha menor proliferação do mosquito”, destaca o médico infectologista André Prudente.

Ao todo, juntando as três arboviroses circulantes, Natal soma 7.104 casos notificados no período (janeiro a maio) ante 396 registros em 2021, o que representa um crescimento de 1.693%. A maioria dos casos está concentrada na zona Norte (2.617), seguida pelos distritos Sul (2.006), Oeste (1.756) e Leste (706). O ranking das incidências (casos/100 mil habitantes) é formado pelos bairros de Pitimbu, Pajuçara, Cidade da Esperança, Neópolis e Nossa Senhora de Nazaré.

“É um esforço coletivo que a gente precisa fazer. Os agentes de saúde, durante as visitas, relatam muito a questão dos reservatórios descobertos, principalmente naqueles bairros onde há bastante falta d’água e os moradores acabam fazendo esses armazenamentos. Isso dá muitas condições para que o mosquite se prolifere, por isso a gente tem feito esse trabalho de orientação também que é muito importante ter a colaboração da população”, declara Márcia Cristina, do Centro de Controle de Zoonoses.

Para quem está com suspeita da doença, André Prudente, que também é diretor do Hospital Giselda Trigueiro, referência estadual em doenças infectocontagiosas, diz que uma série de orientações antes de procurar ajuda médica.

Números

Casos de arboviroses em Natal por bairro (janeiro a maio)

Pajuçara – 1.075;

Lagoa Azul – 645;

Felipe Camarão – 579;

Pitimbu – 499;

Planalto – 408;

Nossa Sra. Apresentação – 357;

Alecrim – 268;

Neópolis – 265;

Lagoa Nova – 260;

Potengi – 249;

Quintas – 220;

Cidade da Esperança – 215;

Candelária – 196;

Nossa Sra. Nazaré – 188;

Bom Pastor – 183;

Ponta Negra – 169;

Igapó – 149;

Redinha – 140;

Cidade Nova – 129;

Dix-Sept Rosado – 128;

Capim Macio – 126;

Tirol – 88;

Nova Descoberta – 83;

Guarapes – 78;

Cidade Alta – 63;

Rocas – 61;

Barro Vermelho – 55;

Lagoa Seca – 45;

Nordeste – 36;

Mãe Luiza – 27;

Petrópolis – 26;

Praia do Meio – 22;

Ribeira – 20;

Santos Reis – 18;

Salinas – 2.

Total – 7.104 casos, sendo 6.643 de dengue, 425 de chikungunya e 36 de zika.

Fonte: Centro de Controle de Zoonoses de Natal.