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Menino de 13 anos que matou mãe e irmão a tiros pode ter transtorno, diz especialista


O caso de um adolescente de 13 anos que matou a mãe e o irmão mais novo, a tiros, e deixou o pai ferido, no último sábado, tem chamado a atenção pela violência cometida por uma pessoa tão jovem. O menino teve sua internação provisória decretada e será encaminhado para o Centro Educacional Do Adolescente da Paraíba, onde receberá ajuda especializada.

Embora não seja possível avaliar qual é o diagnóstico exato sem uma extensa avaliação médica, psiquiatras ouvidos pelo GLOBO explicam que o caso pode ser um exemplo de transtorno de conduta e alertam para os sinais que indicam o distúrbio.

À polícia, o adolescente alegou que teria sido motivado a cometer o crime após os pais terem o proibido de continuar jogando online e terem discutido com ele pelas notas baixas na escola, disse o delegado Renato Leite, responsável pelo caso. Em depoimento, Leite afirmou ainda que o menino se sentiu “pressionado” por cobranças tanto para estudar quanto para cumprir com suas tarefas domésticas.

Depois de cometer o crime, o jovem chegou a ligar para a emergência e mentir que a casa havia sido assaltada, mas os policiais acabaram descobrindo a verdade sobre o assassinato. A arma utilizada era do pai, um policial militar reformado de 56 anos, e ficava guardada em seu escritório. De acordo com o delegado, quando o adolescente soube que o pai não havia falecido, ele se assustou e deu a impressão de que estaria mais satisfeito caso os três familiares não tivessem resistido aos tiros.

O coordenador do Centro de Estudos do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB – UFRJ), e vice-coordenador do Departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Alexandre Valença, explica que as principais patologias na adolescência envolvidas em comportamentos desse tipo são o transtorno desafiador opositivo e o transtorno de conduta.

O primeiro costuma ser mais leve e levar a criança e o adolescente a comportamentos de desobediência, como querer fazer apenas o que quer e a não aceitar ordens. Já o transtorno de conduta é bem mais grave e, por isso, é o que mais se assemelha ao caso na Paraíba, destacam os especialistas.

“Esse diagnóstico provoca o que chamamos de violação de direitos individuais de outras pessoas. Então ele é caracterizado pela agressão a pessoas ou animais, à destruição de patrimônio, ao furto, roubo, a violações consideradas graves como um todo”, afirma Valença.
Tratamento é essencial

O psiquiatra Rodrigo Leite, coordenador dos Ambulatórios do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), concorda que o caso pode se tratar de um transtorno de conduta e acrescenta que esse tipo de diagnóstico pode levar a um futuro transtorno de personalidade antissocial na fase adulta, um quadro ainda mais grave.

“Adolescentes não costumam procurar auxílio por iniciativa própria. Os pais, professores e familiares devem estar atentos a mudanças de comportamento nessa faixa etária. Isolamento social excessivo tem sido um problema bastante frequente atualmente. A disponibilidade de armas de fogo em casa também sempre deve ser encarada como fator de risco para tragédias como o suicídio e o homicídio”, destaca o especialista.

Nesse caso, os tratamentos psiquiátrico, psicológico e psicopedagógico são indispensáveis e, devido à gravidade do quadro, os pacientes são geralmente acompanhados em instituições especializadas.

“Com um adolescente, nós estamos falando de uma pessoa cujo desenvolvimento psicológico não se completou ainda. Então o tratamento nesse caso é essencial. Essa ajuda adequada é muito importante, entendendo todos os aspectos que levaram o adolescente a cometer o crime em primeiro lugar”, explica Valença.

Os psiquiatras ressaltam que é difícil definir os sinais da patologia, uma vez que eles variam de forma muito ampla de pessoa para pessoa, mas no geral envolvem insensibilidade em relação aos sentimentos de terceiros, facilidade em mentir e agredir, ausência de um sentimento de culpa adequado e crueldade com os animais.
Vício em jogos online

Os médicos ressaltam ainda que o vício nos jogos online pode ter colaborado para que o jovem tenha perdido a noção do que é ou não real. Para Valença, o caso pode ser um quadro de dependência de jogos e de internet, o que torna o adolescente vulnerável a não conseguir diferenciar o que é uma simulação e o que é realidade.

“Muitas vezes eles ficam completamente ligados a jogos e ainda não têm um discernimento pleno sobre o que é bom, o que é um ambiente virtual. Além disso, muitos desses jogos têm um componente de agressividade que o jovem, por não saber discernir isso, leva para a vida real”, diz o psiquiatra da ABP.

Leite acrescenta também que essa dependência de jogos pode ser um fator de predisposição nos adolescentes para o desenvolvimento de outros transtornos, como os ansiosos e depressivos, além de oferecer riscos à socialização e ao desempenho escolar do jovem.