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Inflação da ceia supera 90% em 3 anos


Após um Natal atípico em 2020 devido aos altos números de casos de covid-19, dessa vez a inflação altera as celebrações natalinas dos potiguares. O avanço da vacinação já possibilita reencontros, porém a mesa pode estar bastante diferente. Conforme pesquisa realizada pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE em três supermercados da capital potiguar, os itens da ceia natalina estão mais caros. O tradicional chester, por exemplo, chegou a um aumento de até 93% no preço quando comparado aos números de 2018.

Maria de Lourdes Silva vem pesquisando com antecedência os itens necessários para a sua ceia. Faltando uma semana para a data festiva, ela já garantiu o chester por R$23,98, preço que considerou razoável diante das altas encontradas. “A minha família é pequena então os gastos com a ceia não são tão grandes. Mesmo assim, as coisas estão bem caras, tenho pesquisando bastante nos supermercados. Vamos conseguir celebrar com um esforço e colocar tudo na mesa, mas se fosse muita gente não daria. A carne é o que pesa mais, só que tudo está mais caro”.

O mesmo caso acontece com Clara Danielle, que foi com sua filha ao supermercado buscar itens para completar a ceia. Sua família de quatro integrantes vai ter uma ceia bem regrada nesse ano. “Os preços estão horríveis, tudo, tudo mesmo está caro. Mesmo assim, vou sacrificar um pouco para conseguir fazer nossa ceia. Somos quatro e esse ano realmente quis fazer a ceia completa. O chester, arroz, ficaram muito caros, até que estou encontrando alguns valores bons depois da pesquisa mas a ave está demais em todo canto”, relata.

Comparados aos números publicados pelo Procon Natal em 2018, que foi o último ano no qual o órgão apresentou a pesquisa de preços, itens natalinos registram altas consideráveis. Produtos como a ave chester apresentam aumento de 40% a 93% nos mercados pesquisados, com precos de R$23,98 e R$32,99, comparados ao que foi visto em 2018 (R$17,05). Do mesmo modo, a pesquisa do Procon apontava preços de R$19,86, R$72,71 e R$41,87 para lombo de porco congelado, queijo do reino e empumante Chandom Brut, respectivamente. Hoje em dia, esses itens são encontradoscom um aumento médio de 94%, 70% e 98%, por R$ 38,99, R$ 128 e R$ 115, respectivamente.

Serviços de ceia por encomenda têm dificuldades
Através de seu próprio buffet, a chef Larhissa Gurgel produz cardápios especiais para o período natalino há mais de onze anos, antes mesmo de se formar em Gastronomia. Para 2021, Larhissa precisou adaptar o formato de seu cardápio para condizer com a realidade econômica brasileira. “Em relação aos outros anos, eu oferecia a ceia completa. Nesse Natal, desmembrei toda a ceia para poder atender quem não estava com aquela grana toda para comprar tudo de vez e sabe fazer um arroz e uma salada em casa, por exemplo”, explica.

Sem essa adaptação, Larhissa comenta que a alta dos preços de itens necessários ia elevar o valor dos seus produtos em até 30 a 40% no antigo formato. “Dessa forma, optei por fazer essa mudança porque a alta dos insumos realmente foi uma coisa absurda. Esse ano, se o cliente quiser comprar só uma porção de filé, ele consegue, se quiser só uma porção de camarão dá certo também. Se quiser montar a ceia completa com arroz, salada, farofa, também continuei com essa possibilidade”.

A chef aponta o aumento do filé mignon como mais significativo, mais que dobrando o valor do ano passado onde ainda era encontrado por R$50 por kilo. Em 2021, esse preço saltou para R$110 no minimo, sendo então o maior peso da ceia natalina. “O camarão está estável, os assados aumentaram em torno de 30% mas o filé foi campeão. A procura é muito grande, eu tenho média de 50 encomendas e já encerrei os pedidos. Se eu continuasse recebendo demandas até o Natal, chegaria as 100 encomendas. Tive que diminuir um pouco a margem de lucro para não assustar meus clientes, mas com as pessoas conseguindo fazer algo em casa e comprando comigo só os itens que realmente não sabem fazer, pude atender bastante gente”, finaliza.

No mercado vegano, a inflação também é sentida de diversas formas e vem afetando a empresa Delectus há vários meses. A cozinheira Mariana Araújo explica que por trabalhar com insumos sazonais, como vegetais e grãos, esses preços flutuam naturalmente. “Para nós, não teve uma grande variação em função do que já vinha acontecendo nos últimos meses, as altas dos preços estão constantes então precisamos nos adaptar o tempo inteiro. Em Natal, temos um problema de abastecimento em que alguns insumos simplesmente somem das prateleiras as vezes, por isso quando encontramos estão bem mais caros”.

A Delectus está no mercado potiguar desde 2015, produzindo alimentos veganos e sem glúten que atendem aqueles que seguem esse estilo de vida, clientes que possuem alguma restrição alimentar ou aqueles que simplesmente buscam comida saudável. Segundo Mariana, a empresa sempre contou com a procura de pessoas não veganas e realiza serviços de encomenda para o período natalino há cinco anos. Em 2021, a estratégia encontrada para lidar com o contexto econômico foi enxugar o cardápio e ofertar um desconto para quem reservasse pedidos com antecedência.

“Acredito que quase todas as pessoas que trabalham com alimentação já vem sentindo essa alta e precisamos fazer alguns ajustes ao longo do ano, não só pelos insumos em si mas em função de tudo o que acarreta a produção e que teve alta que continuam constantes, desde energia elétrica a embalagens.
Precisamos não necessariamente adaptar coisas, mas reajustar os valores em relação ao ano passado de uma forma que percentualmente foi bem mais considerável do que outros anos. Optamos também por fazer um cardápio menor e coeso, justamente para concentrar em produtos que as pessoas pediram mais”, explica.

Chef potiguar propõe cardápio mais econômico
Atuante no setor há 11 anos, o chef seridoense Warison Albino, consultor e professor de Gastronomia na Universidade Potiguar (UnP), propôs dois cardápios mais em conta usando ingredientes que muitos já possuem em casa. “A proposta reinventa uma ceia de Natal com o pouco que temos diante do que estamos vivendo no Brasil. A intenção é não deixar de fazer a nossa ceia, que está enraizada nesse momento festivo. Temos sim motivos para comemorar, estamos vivos e vamos sobreviver essa crise”, comenta.

De acordo com Walison, a capacidade de adaptação é característica da Gastronomia, que sempre está reinventando pratos e fazendo substituições de ingredientes. O chef acredita que ao valorizar aquilo que é brasileiro, trabalhando com o que se tem na despensa e geladeira, nossos ingredientes podem estar em evidência e serem protagonistas.

“Pensamos em dois cardápios, um é a terrine de lombo de porco e a ideia é que esteja dentro dessa massa o que você tem em casa. Na outra opção, para substituir o tão valorizado chester, vamos fazer o frango como protagonista da nossa ceia e recheá-lo com farofa de ovo e cuzcuz, usando algumas cenouras para compor o prato”, diz.