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Filme mostra os sabores dos biscoitos do Seridó


Os biscoitos do Seridó estão no cotidiano do potiguar desde o café da manhã até o jantar. Uma parte dessa história por trás das bolachas amanteigadas, sequilhos, raivas, biscoitos palito e outras iguarias crocantes, está contada no mini documentário “Alegria feita de farinha”, obra dos chefs Renata Lopes e Christian Sarmento. A dupla apaixonada por esse recorte da culinária ancestral passou por Assu, Jucurutu e Caicó para ouvir causos, receitas e histórias das criadoras originais dessas massas. O trabalho pode ser visto no Youtube e foi realizado com recursos da Lei Aldir Blanc por meio de edital do Governo do Estado, Governo Federal e Ministério do Turismo.

O debate sempre saboroso entre a culinária contemporânea e os saberes antigos, a cozinha clássica, foi o que inspirou Renata e Christian a tomarem o caminho do sertão potiguar e rodar esse filme. “Foi a partir dessa discussão que acabamos chegando aos nossos biscoitos tradicionais, e nos perguntando aonde eles estão? Como foram criados? Daí fomos atrás da história deles”, conta ela à TRIBUNA DO NORTE. Foram dois dias de filmagens; primeiro em Assu, depois Boi Selado, distrito de Jucurutu, e por fim, Caicó.

Durante a passagem, ela ressalta que foi fácil constatar que a maioria desses comércios, conhecimentos e produções são comandados por mulheres. O “circuito biscoiteiro” faz parte da memória cultural do Estado, pois boa parte desses doces têm a força da origem local. São fazeres que chegaram na região pelos colonizadores portugueses, mas que foram adaptados pelas mãos das moradoras locais, mulheres livres ou escravizadas, brancas, negras e indígenas, que recriaram aquelas receitas que vinham dos conventos lusitanos.

As biscoiteiras
Francisca D'arc de Araújo Batista, de Caicó, começou com a mãe fazendo biscoito-palito para vender numa banca de feira. A mãe deixou de herança várias receitas e um dilema: manter o padrão dos biscoitos usando os ingredientes originais ou desistir do negócio. O sonho de Francisca e de sua mãe era montar uma lojinha para vender os biscoitos. Hoje, a Produtos Caicó tem seu próprio empório para venda direta e também fornece mais de 20 itens de biscoitos para vários supermercados. O “Palito” é o mais famoso.

Em Boi Selado, Francinete Cardoso contou como começou a fazer seu famoso biscoito de leite. “Comecei com 1 kg de farinha. Depois comprei dois kgs e hoje temos a Massas São Francisco. Foi luta, mas conseguimos”. O fato de ter mulheres à frente de duas grandes empresas chamou a atenção da chef Renata Lopes: "O que mais me surpreendeu ao fazer o documentário foi ver o império que essas mulheres criaram em cima da produção desses biscoitos, vemos que é um mercado que realmente é comandado por mulheres”.

Em Assu, Edivan Albuquerque comanda a Padaria São João Batista, conhecida por fabricar o biscoito Flor de Assu, há mais de 50 anos. O padeiro Luiz Carlos, que está há 13 anos na padaria, fala com amor sobre a receita: O segredo é a manteiga da terra, assim como as especiarias cravo e erva doce, com ovos, depois farinha e bicarbonato. A massa descansa e no outro dia é que vamos cilindrar e cortar no modelo”, contou.

Além das receitas e histórias pessoais, o filme também traz depoimentos da professora de gastronomia Elizabeth Assunção, da pesquisadora e criadora do museu Doces do Seridó, Maria Isabel Dantas, e a pesquisadora e cozinheira Gabriela Sales, além da presença do historiador de Jucurutu, Nanael Simão de Araújo, que explica como a origem geográfica e social da cidade explica essa fama de ser a terra das padarias e dos biscoitos.

Sabores originais
Boa parte das iguarias seridoenses tem sido industrializada e distribuída pelo RN, uma forma de alcançar todos os potiguares. Segundo Renata, isso não tem descaracterizado o sabor dos biscoitos. “Mesmo tendo passado do artesanal para o modo de industrialização, constatamos o cuidado e preocupação para manter as receitas tradicionais, assim como o uso de insumos produzidos e característicos do sertão, como a nata e a manteiga da terra”, diz. Ela ressalta que é uma preocupação das grandes empresas manter o sabor, pois “o cliente percebe”. O controle de qualidade vem de casa.

Serviço:
Documentário “Alegria feita de farinha”, de Renata Lopes e Christian Sarmento. Já disponível no Youtube.
*Com informações do site Típico Local