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Geração de energia eólica e solar bate recorde em meio à crise hídrica


Pesquisador avalia importância do investimento em diferentes fontes de energia renováveis

No mesmo mês em que hidrelétricas -fonte com maior participação na matriz brasileira de geração de energia elétrica- sofrem o impacto da menor quantidade de água chegando aos reservatórios dos últimos 91 anos, as usinas eólicas registram feitos históricos e, assim, chamam a atenção para a importância de investimento em fontes de energia renováveis que não a hídrica. Na última 5ª feira (22.jul), foi gerada quantidade recorde de 11.094 MW (megawatts) médios por meio dos ventos, no nordeste, e estes atenderam 102% da carga consumida na data na região, segundo comunicado emitido na 6ª feira (23.jul) pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

O recorde anterior, diz o ONS, havia sido observado no dia 21 e já configurava o terceiro somente em julho. Na mesma data, a energia solar, por sua vez, registrou valor inédito para a geração instantânia (pico) de 2.211 MW, também no nordeste, atentendo a 20% da carga demandada no momento (12h24). Um trabalho mais constante para a expansão de outras fontes de energia seria, então, uma forma de o Brasil evitar ou diminuir o impacto no sistema elétrico de falta de precipitações, como a que está em curso? Em entrevista ao SBT News, o diretor presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE), Alexei Vivan, disse: "É muito importante que se continue investindo. Quanto maior a diversificação da matriz elétrica brasileira, menos dependente a gente ficará das chuvas".

O pesquisador do Centro de Eficiência Energétia da Amazônia (CEAMAzon), ligado à Universidade Federal do Pará (UFPA), Bruno Albuquerque tem o mesmo entendimento. "A gente sabe que é um pouco perigoso, arriscado, termos uma única fonte como principal. Por isso estamos passando por esse momento um tanto quanto difícil da escassez hídrica e estamos sofrendo impactos com isso. Então, investimento em outras fontes de energia ele se faz fundamental, porque a partir do momento em que uma fonte sofre algum impacto, ela tem alguma escassez, como é o caso da hídrica, podemos ser abastecidos por meio de outras", completou.

De acordo com o Boletim Mensal de Monitoramento do Sistema Elétrico Brasileiro -do Ministério de Minas e Energia (MME)- para maio, a matriz brasileira é constituída seguinte forma: 60,2% hidráulica, 24,8% térmicas, 10,1% eólica e 5% solar. Porém, mesmo concordando que expandir a capacidade de geração das duas últimas, por exemplo, seja importante, tanto Alexei como Bruno afirmam que promover uma substituição das hidrélicas pela geração de energia por meio dos ventos ou do sol seria impossível.

Segundo o diretor presidente da ABCE, "o Brasil historicamente é um país como nenhum outro do mundo em termos de potencial hidrelétrico, então lá atrás, o setor elétrico brasileiro, que é orgulho nacional, e orgulho ainda mundial em termos de geração de energia elétrica limpa, renovável e em grande quantidade, foi estruturado para ter essa cadeia de cascatas, de usinas hidrelétricas, por conta do potencial dos rios nossos". Na sequência, acrescentou: "E ainda que a gente invista cada vez mais em fontes eólicas, solares, que são renováveis assim como são as hidrelétricas, a grande questão que nós temos que pensar é na segurança do abastecimento de energia elétrica. Por quê? A fonte hidrelétrica, assim como as fontes térmicas, elas dão segurança ao sistema que uma fonte eólica, que uma fonte solar não conseguem dar".

O motivo, de forma específica, é que os ventos e o sol configuram fontes intermitentes de energia, pois variam ao longo do dia e, portanto, não estão sempre à disposição. Dessa forma, explica Alexei, devem entrar como fontes complementares, para ajudar na recuperação dos reservatórios das hidrelétricas, mas não como substitutos. Atualmente, outras renováveis em teste são a geotérmica -que utiliza calor do interior da Terra- e a maremotriz -partir do movimento das ondas do mar.

Investimentos

Outro fator a ser considerado ao pensar na importância do investimento em diferentes fontes de energia renováveis, relembra o diretor da ABCE e o pesquisador do CEAMAzon, é o impacto ambiental do sistema elétrico. "Hoje, mundialmente, você reduzir a sua pegada de carbono, você reduzir o impacto que a sua atividade tem no meio ambiente cada vez mais está sendo valorizado perante a sociedade, mesmo perante os fincaciadores, cada vez mais os bancos, até para fnanciar novos projetos, tem exigido aí a preocupação com o meio ambiente. Então você vê por exemplo grandes empresas pretrolíferas, ao poucos, passando a investir também em fontes renováveis de energia elétrica", afirmou Alexei.

Bruno acrescenta que "hoje em dia, fazer novos investimentos em grandes usinas hidrelétricas é muito difícil, é muito complicado, demanda um impacto muito grande da natureza". "Imagina fazer um alagamento gigantesco, então são fontes que digamos assim não são previsto ser feitos novos investimentos desse porte que a gente via antes e vem chegando essas novas tecnologias, como a fotovoltaica [energia solar], que ela se integra ao ambiente da cidade, ela se integra seja a um ambiente mais rural, sem causar muito impacto, podendo ser integrada a edificações ou a outras estruturas, como estacionamentos", pontuou.

De todo modo, na visão do pesquisador, o crescimento dessas outras fontes vem ocorrendo de forma lenta, inclusive devido a investimentos insuficientes por parte do poder público para ajudar no barateamento. Nas palavras de Bruno, "o preço, por ele ser um pouco elevado, ele não consegue chegar a todas as camadas da sociedade. Um pouco dificultoso uma pessoa fazer investimento inicial num valor desse. Entretanto a gente sabe que isso é um investimento muito interessante para a maioria das famílias, para a mairoia das casas em residência, poder investir numa tecnologia como os sistemas fotovoltaicos, de energia solar, você vai estar tendo um retorno e investimento em torno de três anos".

Uma placa fotovoltaica e um inversor solar, diz o pesquisador, pode durar até 25 e 10 anos, respectivamente. Em nota enviada ao SBT News, o MME afirma que "para qualquer cenário de planejamento energético pelo Ministério, em que pese a antecipação da neutralidade climática para 2050 (conforme mensagem do Presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima em abril), verifica-se que a participação das renováveis na matriz elétrica deve continuar acima de 80% até 2030, chegando a cerca de 85% em 2050".

A pasta detalha que, nos últimos 12 meses, a fonte solar cresceu 63% no país. Além disso, diz que o governo zerou impostos de importação para equipamento utilizados na geração de energia solar e que a expansão energética "para os próximos 10 anos indica a necessidade de investimento da ordem de R$ 2,7 trilhões no setor de energia". "Nesse processo de expansão, o MME não se descuidou da sustentabilidade ambiental, instituindo Programas de incentivos às fontes renováveis de energia e redução de emissões, como Proinfa, Renovabio e Combustível do Futuro assim como o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB); Programa de Controle de Emissões Veiculares (Proconve) e o Programa Rota 2030", completa.