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500 mil histórias destruídas pela covid: a dor que os números ocultam


Trágica marca atingida pelo país é tão grande quanto o sofrimento de familiares daqueles que formam esse número

A devastação sem precedentes causada pela pandemia da covid-19 no Brasil atingiu, neste sábado (18.jun), um novo recorde. De acordo com os dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), o país ultrapassou a triste marca de 500 mil vidas perdidas para o novo coronavírus. O número assustador reflete a má gestão e o despreparo das mais diversas esferas durante a crise sanitária, e escancara a ferida de meio milhão de famílias brasileiras, que tiveram suas histórias interrompidas por uma doença cruel e traiçoeira.

Levantar da cama e executar as tarefas rotineiras tornou-se um martírio para Eliana Maria Paulucena, de 26 anos, que vive em uma casa simples localizada no Jardim Marilena, bairro situado nos arredores do Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Há cerca de um mês, a jovem perdeu -- em um intervalo de 20 dias -- o marido, Alessandro Rodrigues Lacerda, 26, a cunhada, Francielli Rodrigues Lacerda, 28, e o sogro, Adalberto da Silva Lacerda, de 55. Todos vítimas da covid-19.

Com o olhar entristecido e os ombros curvados, como se tentasse se desvencilhar da dor dilacerante que a dominou após a tragédia, Eliana recorda com saudade do companheiro carinhoso, divertido e amoroso. "Ele era uma pessoa muito extrovertida, muito alegre, vivia fazendo palhaçada o dia todo. Faz uma falta tremenda".

O marido de Eliana, que trabalhava como motorista de aplicativo, apresentou os primeiros sintomas da doença em 22 de abril. Na ocasião, Alessandro relatou para a esposa em uma ligação, realizada durante o expediente, que estava sentindo uma indisposição incomum. "Nossa filha estava com febre há alguns dias, não sei se ela teve (covid-19) ou não, mas eu já tinha enviado uma mensagem para ele, avisando que a Eloá estava com muita febre e que precisaríamos levá-la ao médico. Aí ele disse que também estava um pouco indisposto", relembra. 

Após retornarem da unidade de saúde, localizada a poucos minutos da residência da família, Eliana notou que o marido também estava febril. "Quando eu vi ele deitar, pensei: 'Tem alguma coisa de errado'. Me aproximei e percebi que ele estava muito quente. Quando medi a temperatura, vi que ele estava com 39,5ºC." O casal retornou ao hospital e, segundo o médico que o atendeu, Alessandro tinha apenas um "resfriado forte". 

"Não imaginamos que fosse coronavírus, a gente não pensa nisso na hora. Depois, no terceiro dia que ele estava bem ruim, foi que suspeitamos. Ele continuava com muita febre e não queria levantar da cama", explica. Com a persistência dos sintomas, Eliana e Alessandro retornaram à Unidade de Pronto Atendimento Taboão (UPA Taboão), mas, novamente, a hipótese de infecção por covid-19 foi descartada pelos médicos. "O doutor olhou a garganta dele, pediu o raio-x do pulmão e falou: 'Não é covid, pode ficar despreocupado que é só uma gripe forte, mas vou te passar vários remédios. Com certeza você vai ficar melhor'."

Apesar de seguir à risca as orientações dos médicos e de fazer uso dos medicamentos receitados, Alessandro não apresentava nenhuma melhora. "No sexto dia dos sintomas, a gente já estava dormindo. Percebi que quando ele foi virar de um lado para o outro, começou a tossir muito. Ficou meia hora seguida tossindo sem parar e falando que o peito estava doendo. A gente correu para o hospital de novo." Na unidade de saúde, o jovem ouviu -- mais uma vez -- que aquelas manifestações eram de uma gripe intensa. 

O casal decidiu ir a uma farmácia para fazer o teste RT-PCR -- conhecido popularmente como "teste do cotonete" -- após não obter autorização para realizar o exame de forma gratuita na rede pública. "Os médicos não autorizavam porque diziam que ele não estava com covid." O resultado comprovou o que o corpo de Alessandro sinalizava há dias: ele estava infectado com o novo coronavírus. 

"Levamos o teste direto para o hospital e pensamos: 'Agora eles vão nos ajudar'. Aí o médico passou vários remédios, pediu para ele comer bem e afirmou que logo ele estaria recuperado." No entanto, Alessandro não teve forças para levantar da cama no dia seguinte e, tampouco, se alimentar da maneira orientada pelos profissionais. De volta à unidade de saúde, os médicos constataram que a saturação de oxigênio do autônomo estava abaixo de 90% -- quando o normal é acima de 95%. "Nesse momento, pediram outro raio-x do pulmão e falaram que estava todo manchado. Ele acabou sendo internado", diz a esposa. 

Internação 

Após a internação, Eliana e Alessandro se viram apenas duas vezes. O casal, que estava junto havia cinco anos, não imaginava que os encontros realizados dentro do quarto de um hospital seriam os últimos. "Na primeira vez eu só fui à UPA porque eles ficaram dois dias sem dar nenhuma notícia", explica, referindo-se à ausência do boletim sobre o quadro de saúde, que é fornecido pela unidade aos familiares dos pacientes internados.

A segunda visita ocorreu em 12 de maio, quando os médicos informaram à Eliana que Alessandro havia apresentado uma melhora significativa. "Eu e minha sogra fomos lá, ficamos mais de uma hora conversando com ele no quarto." De acordo com a equipe médica, o pulmão do jovem não estava inflamado como antes. Contudo, o vírus tinha afetado 80% do órgão. 

"Apesar disso, ele estava consciente o tempo inteiro e dizia que não queria ser intubado, porque todo mundo que era (intubado) não resistia. Ele falava que tinha muito medo", relembra com a voz embargada. No início da noite daquela sexta-feira, 14 de maio, Eliana recebeu a ligação do hospital. Segundo a médica, o quadro clínico de Alessandro havia apresentado uma piora súbita e existia a possibilidade dele ser submetido ao procedimento que tanto temia. "Foram momentos de muita angústia, a gente não sabia se ele seria intubado ou não". 

No dia seguinte, Alessandro sofreu uma fibrilação atrial -- problema que consiste na descompensação do padrão cardíaco -- e teve uma parada cardíorrespiratória. O jovem foi intubado às pressas, mas, após 20 minutos, teve a morte confirmada. "Os médicos fizeram 12 reanimações para tentar trazer ele de volta, só que não deu. Ninguém imaginava que ele fosse morrer", lamenta.

Tragédia em meio à tragédia 

Uma semana antes da morte do marido, Eliana assistiu, de forma impotente, a covid-19 levar o primeiro integrante de sua família. Em 9 de maio, a cunhada Francielli Lacerda, de 28 anos, morreu em decorrência das complicações do vírus. "O Alessandro já estava internado e não ficou sabendo do que aconteceu, a gente achou melhor não contar. Queríamos falar quando ele estivesse estável."

O sogro da jovem, Adalberto Lacerda, de 55 anos, acompanhou de perto o sofrimento de Alessandro e Francielli. Em duas semanas, Lacerda se viu diante de um abismo que contraria a lógica natural do ciclo da vida: enterrou os dois únicos filhos, vítimas de uma doença viral -- para qual já existia vacina em todo mundo.  

O patriarca da família -- sem saber que também estava infectado pelo vírus -- compareceu ao sepultamento do caçula e passou mal. "Acho que juntou tudo, a morte dos filhos, a covid... levamos ele às pressas para o hospital. Após alguns dias internado, ele sofreu uma parada cardíaca em 29 de maio e morreu", relata Eliana. 

Adalberto Lacerda tinha diabetes e pressão alta | Reprodução/Arquivo Pessoal

Diferentemente de Alessandro, a cunhada e o sogro possuíam comorbidades. Francielli tinha esquizofrenia -- distúrbio mental crônico e incapacitante --, enquanto Adalberto sofria de diabetes e pressão alta. 

Lembranças

No quarto do casal, repleto de fotografias que eternizaram momentos vivenciados pela família, a pequena Eloá, de um ano e dois meses, questiona a mãe sobre a ausência do pai e se apega aos porta-retratos. Como se pudesse amenizar a saudade que a pouca idade ainda não a permite entender, a menina beija as fotos em que Alessandro aparece e diz com a voz infantil: "É o papai!". 

Alessandro e a filha Eloá | Reprodução/Arquivo Pessoal

"Eu acho que ela sente mais falta dele agora. Ela fala muito sobre ele, mas ainda não entende o que aconteceu, né? Só vai compreender quando estiver um pouco maiorzinha, mas eu ainda não tô preparada para isso", diz Eliana, com os olhos marejados. 

Na tentativa de suavizar a dor da ferida que dificilmente será cicatrizada, Eliana leva a pequena Eloá todos os dias à casa da sogra, Eilma Rodrigues Lacerda, de 55 anos. Devastada pela morte dos filhos e do marido, a dona de casa -- que não sabe ler nem escrever -- vive à base de calmantes. "Ela fica mais alegrinha ao ver minha filha, afinal é a única neta que ela tem e a única que ela vai ter. Mas ela começa a chorar do nada, diz que a vida dela não tem mais sentido, que perdeu tudo."

Um mês após a tragédia, a família ainda não tem certeza sobre como as infecções ocorreram. "A gente imagina que o Alessandro pegou de algum passageiro, porque ele pegava em dinheiro e tudo mais. Às vezes a pessoa entra no carro, não sabe que está (contaminado) ou sabe e não se importa. Mas acho que foi dessa forma. Nosso 'sair' era para casa da minha sogra e para fazer compras no supermercado", explica. A jovem também acredita que o marido foi quem transmitiu a doença aos parentes. 

"Acho que ele acabou transmitindo, porque ele apresentou os sintomas primeiro e depois foi a minha cunhada." Ainda segundo a esposa, Alessandro temia a doença: "Ele morria de medo, a gente falava muito sobre isso porque não tinha como não falar". 

Para Eliana, seguir em frente é uma missão, cujo combustível é o fruto da sua relação com Alessandro. "Se eu não tivesse minha filha, talvez eu deixasse tudo para lá. Mas com ela não tem como. Preciso cuidar e fazer as coisas por ela."