Tulio Lemos em reverência ao Mestre Floriano Bezerra


Macauense - A escrita do ex-deputado, líder operário-camponês Floriano Bezerra de Araújo é caudatária de fé transformadora, com conteúdo e forma insatisfeitos com as injustiças sociais. Assim, o CADERNO DE MEMÓRIAS DE FLORIANO BEZERRA incursiona na história e na sociologia, ao narrar o cotidiano simples, comum num determinado tempo geo-político-cultural. Com vontade, atitude e trabalho ornados de criatividade, tecnologia e conhecimento, todas as segundas-feiras dos últimos meses, Floriano tem produzido inéditos textos político-literários, que com prazer compartilho com vocês. Vejam:

UM BANHO DE MAR, DOR E MUITA HISTÓRIA
Ano 1942/RN. Eu vivia no verdor dos meus 15 anos. Ajudava meu tio materno, Afonso Solino no balcão e administração do seu próspero comércio da panificação.

- Papai se inscreveu no Serviço Nacional dos Trabalhadores para o Amazonas. Antes de viajar me deu suas ordens. Em virtude de tal, eu vivia mais em casa do meu tio. Às vezes, nos domingos, Dona Maura, que eu chamava de tia Maura, me convidava para ir com ela, as filhas ainda menores e Dona Ninar, sua mãe, para um banho de mar no Alagamar. Lá moravam famílias de homens do mar: OS CAPA, FERREIRA, e RODRIGUE.

- Pelas 7:30 horas, a pés pegamos o caminho do Alagamar ou praia do Waikiki, o qual, seco, a gente passou para a praia do Camapum, e no banho, uma ondazinha me pegou de revés, luxando-me o braço direito cuja dor quase me tirava o ânimo de ação, contudo, botei o braço entre as coxas e com a mão esquerda segurei o tronco do braço deslocado, dei um sopapo pra cima, o braço voltou ao lugar natural; momento em que tia Maura me viu em palidez de desmaio, perguntando-me o que eu sentia, respondi: Meu braço saiu do lugar, porém já pude botá-lo. Aí me ajudou a levantar d’água, e disse: Vamos pra Macau.

Atravessamos Waikiki; botamos pés no caminho e em casa na Benjamin Constant, eu lhe disse: Tia Maura eu vou para casa de mamãe na João Crisóstomo passar o domingo. Em casa, informei mamãe do ocorrido, e da dor que passei na praia. Penalizada, chorou; pedindo-me nunca mais tomar banho de mar. Eu lhe disse, nunca mais.

- Lembro-me ainda que o patriarca dos Ferreira, chamava-se Hermenegildo. Este cidadão tinha 1m e 80 e pesava 110kg. Só assinava o nome. Sabia somar e diminuir. Tinha uma bodega em casa. Trabalhava de cabeceiro no armazém comercial do Sr. Vicente Gomes Barbosa, em Macau.

- À tardinha quando Seu Vicente ia fechar o estabelecimento, Hermenegildo, quando mais novo, consignados, levava três sacos de farinha para a bodega no Alagamar, um debaixo de cada braço, o outro na cabeça. Tinha força de gigante. Depois, a idade foi avançando... então passou a transportar dois sacos de farinha de mandioca: Um na cabeça, outro no braço, que, no meio do caminho, passava para o outro.
- As lembranças de Seu Hermenegildo, trago vivas em minha mente. Avivadas pela recordação guardada na memória do seu filho caçula Hermenegildo Ferreira, meu ex-colega de tiro de guerra 242, em Macau; que respondia pelo número de guerra 20 ou Ferreira. Era meu amigo. Depois começou a beber e vivia embriagado. Foi a óbito num surto de febre paratifo que assolou a cidade em 1954.
-Estou lembrado que neste ano chegou a Macau o médico Júlio Brandão migrado do Recife onde deixou a direção da grande maternidade de Jaboatão dos Guararapes. Humilde de vocação. Bolsinha na mão, comigo visitava as famílias ou doentes da febre matadoura e contagiosa. Nos dias, eu era vice-presidente do STI da Extração do Sal, que já tinha um programa de assistência aos trabalhadores.
Minha mente tem clareza: Dr. Júlio curava com sua medicação aplicada a todos os doentes da febre tifoide ou paratifo sob seus cuidados.
- Hoje cada vez que Dr. Júlio Brandão vem de Recife a Natal visitar parentes de sua esposa, honra-me com sua visita e muito papo de recordações da história de sua vida, de Macau e amigos que lá deixou.
Há! É a vida como passa pelo homem!...

(Foto: Floriano Bezerra de Araújo e Tulio Lemos, na noite de lançamento e autógrafos do livro 
MINHAS TAMATARANAS - LINHAS, 2009)

Fonte: Renan Ribeiro
Tulio Lemos em reverência ao Mestre Floriano Bezerra Tulio Lemos em reverência ao Mestre Floriano Bezerra Reviewed by Portal Macauense on 4/04/2016 02:10:00 PM Rating: 5

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